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Archive for novembro \16\UTC 2011

A Pedra

A pedra vê tudo o que acontece ao seu redor, mas não sente. A chuva cai, o vento sopra, o sol brilha, mas a pedra continua ali. Parada. Estável. Ela observa os seres ao seu redor, ela vê o tempo passar, ela vê os seres desaparecerem e continua lá.

Ela pode descrever com perfeição cada um, mas não sabe nada de si. Acha-se forte, impenetrável, inquebrável. Ela é, ela é, sim, ela é.

Certo dia apareceu um garoto, ele parou e olhou diretamente em seus olhos. Ele a pegou e começou a correr. Se a pedra soubesse o que é sentir, saberia que a mão do menino era quente. Se ela soubesse o que é estar impressionada, ela ficaria vislumbrada com a paisagem. Mas, tudo o que ela podia fazer era olhar e aprender.

Na mão do garoto a pedra entendeu que seu mundo era mais do que os seres ao seu redor, ela viu uma estrada, outras árvores e um mar. De repente foi arremessada, quicou uma, duas, três vezes e afundou. No mar, no fundo do mar, qualquer outro ser teria medo daquela escuridão, naquela solidão.

Ela não teve noção de quanto tempo ficou ali, porém quando amanheceu ela percebeu que em seu novo ambiente as coisas flutuavam e sempre seguiam o mesmo curso. Fez força para pular e um leve movimento surgiu. Não precisava de ninguém para levá-la a outros lugares, ela podia sair, se mexer, passear e foi…

Conheceu algas, cavalos marinhos, peixes, conchas, caracóis, corais, tartarugas e uma porção de coisas. Absorveu todo conhecimento que pode até que foi pescada e levada de volta à terra seca.

A luz do sol quase a cegou, a rede balançava e sob um armário foi posta. Dentro do barco havia cheiro de fumo, mas isso não a incomodava, ela não tinha nariz. Havia muita risada, muita tosse e barulho de louça. Ela teria ficado triste ao comparar a beleza do fundo do mar com a sujeira daquele barco, mas não tinha um coração pulsante.

O marinheiro a pegou, limpou em sua roupa e disse “Minha filha vai gostar dessa”. A pedra virou presente ou uma lembrança do pai ausente que vivia no mar. Ela esperou.

Quando chegaram no porto, ao descer do barco, o marinheiro bateu a mão e sem querer quebrou. Um pedaço da pedra caiu na água e ela teria chorado, mas não sentiu dor. Sabia que um pedaço dela estava no lugar onde mais gostou de estar.

Vamos agora para uma nova aventura, não, ela estava na mão de uma garota que gritava sob sua cabeça e a colocava em sua orelha. “Acho que ela pensa que sou uma concha” pensou a pedra…

Então, foi parar num quarto cheio de brinquedos improvisados, os pais eram criativos, a pedra admitiu e a criança… A criança era,…, era,…, era terrível. A pedra teria entrado em desespero se tivesse emoções, mas não se importou em ser jogada para lá e para cá, caiu em almofadas, no chão, nos brinquedos, até que voou pela janela.

Ao repousar no chão notou que estava em milhares de pedaços, descobriu que não era inquebrável, viu que algumas partes estavam mais escuras e percebeu que não era impenetrável. “Será que é assim que vou desaparecer?” pensou a pedra.

Não podia se mexer, porque no mar, o impulso era a onda e o movimento era a correnteza. Ali, caída, em mil pedaços fechou os olhos. “Não vou ver o meu fim” pensou. “Está na hora de dormir” e assim permaneceu. Em silêncio, sozinha, na escuridão de seus pensamentos e pela primeira vez desejou estar rodeada pelas plantas que a cercavam no começo. Bateu o vento e dessa vez ela sentiu a brisa. “Se eu soubesse que era tão bom ter sentimentos, teria aberto mão do conhecimento”…”Não, se eu tivesse sentimentos não seria forte para suportar toda a viagem”…Dúvida…”Espera um pouco…”

A pedra abriu os olhos porque descobriu que sempre teve sentimentos, apenas não explorava seus sentidos e agora essa nova situação, ela pôde apreciar do conhecimento com emoção e uma lágrima caiu. Não era tristeza, era felicidade.

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